Asas

Conto por , em 27 de setembro de 2010

Parou diante de mim tão dis­creta que me assus­tei quando per­cebi seus tra­ços for­tes: era linda. Tinha qual­quer coisa de muito mali­ci­oso no jeito que desem­ba­ra­çava, com as mãos, seus cabe­los e no modo como a lín­gua per­cor­ria a parte de den­tro do lábio supe­rior, me fazendo estre­me­cer toda, por­que con­tras­tava com um olhar per­dido, quase autista, mer­gu­lhado em uma lágrima que estava sem­pre por cair, mas não caía nunca.

Suas asas ver­me­lhas eram trans­lú­ci­das e assim, de frente pro sol, pare­ciam vitrais de alguma igreja antiga, como os que a minha mãe nunca me dei­xara encos­tar, dizendo que eu ia que­brar o rosto colo­rido daque­les san­tos. Eu sem­pre quis encos­tar naque­les vitrais, mas tam­bém sem­pre fui uma boa menina.

Ela se enver­go­nhava das asas e eu sabia disso, pois toda vez que eu as olhava elas se deba­tiam que­rendo se escon­der. O far­fa­lhar das asas fazia o meu cabelo todo voar e Ela, cui­da­do­sa­mente, lim­pava os cabe­los caí­dos na minha fronte com sua mão­zi­nha pequena, sem­pre gelada demais. A gente se olhava por horas.

Eu, qui­eta, sem saber se Ela enten­de­ria a minha lín­gua. Ela, igual­mente qui­eta, com uma sau­dade de qual­quer coisa tão sublime que eu devia ser inca­paz de com­pre­en­der. Por dias nos encon­tra­mos naquele mesmo lugar. Eu, em outras épocas, gos­tava de ir pra lá atrás de algo que eu tinha per­dido, mas que eu não me lem­brava exa­ta­mente o que era, e, nessa pro­cura cega, fiquei por meses até Ela che­gar. Lem­bro tão cla­ra­mente da pri­meira vez que A vi: achei que era um sonho, achei que era lou­cura, achei que era bonito demais.

Não me atrevo a con­tar a nin­guém, não enten­de­riam e eu não sei até de que ponto vai o meu desejo de ser enten­dida. Gosto dessa falsa feli­ci­dade com cara de efê­mera e bra­ços de eterna.

Agora Ela fica diante de mim. Será que eu me apro­ximo? Será que eu falo? O que será que eu digo?

Oi”

Ela sor­riu. Deve tá achando engra­çado meu ner­vo­sismo. Ela sabe que a pre­sença dEla me põe ner­vosa. Ela sabe que eu pas­sei a noite inven­tando mil manei­ras de pen­sar nEla e não dormir.

Você tá com frio?”

Foi a única coisa que eu fui capaz de dizer, mas é que Ela me segura e me solta, Ela me joga para todos os can­tos da minha cons­ci­ên­cia e, ai de mim, Ela nem me encosta. Ela con­ti­nua sor­rindo. Eu não sei se Ela sente frio. Assim, com os seios des­co­ber­tos, parece tão impo­nente. Dei um passo adi­ante. Ela não recuou. Dei mais um.   Ela con­ti­nua sor­rindo. Será que essa mulher de asas vinda de um não-sei-onde vai me enlou­que­cer? Será que eu já não enlouqueci?

Ela não me entende. Ela quer me matar…

Eu deixo, me mata. Me ama e me mata, mulher de asas e luz. Acaba comigo aqui.”

Ela não se mexe, Ela não me diz nada. Eu vou che­gar mais perto. A res­pi­ra­ção dEla já se faz sen­tir no meu rosto. Arfa o peito de seios tão boni­tos. Eu os pego. Quanta ousa­dia. Eu sou boa menina, ai se a mamãe visse.

Ela sorri enquanto eu con­ti­nuo segu­rando os seios.

Eu con­ti­nuo segu­rando seus seios agora eu vou me apro­xi­mando dos seus olhos autis­tas e beijo. Minhas mãos sol­tam os seios da mulher per­feita. Per­cor­rem a cin­tura da mulher per­feita… per­cor­rem as cos­tas da mulher per­feita. Quando fui abraça-la: asas.

Asas ver­me­lhas, molha­das, trans­lú­ci­das. Mãe, eu encos­tei no vitral da igreja, ele vai quebrar?

O vitral vai que­brar”, repeti alto. Eu me afas­tei. Meus Deus, mamãe!  -

Você não existe”.

Ela saiu humi­lhada. Não se jogou de onde estava por­que pode­ria voar. Eu sei que Ela cho­rou, por­que aquela lágrima que nunca caía, caiu. E seus olhos, outrora autis­tas, agora me fixa­vam sinceramente.

Eu quis dizer alguma coisa. Ela come­çou a arran­car as pró­prias asas, urrando de dor.

Não, os san­tos, não des­man­cha a cara dos san­tos. A mamãe vai bri­gar” Fica qui­eta ou ela vai mor­rer, mamãe. Ela não é uma boa menina.

Asas trans­lú­ci­das muito mais ver­me­lhas. Ver­me­lho cor de sangue.

Eu que­ria pedir para Ela parar, mas eu não disse nada, eu não pode­ria dizer nada.
Enquanto eu me con­ven­cia de que nada podia fazer, Ela min­guava. Eu ten­tava não pen­sar nos san­tos do vitral e na mamãe, mas eu pen­sava. Quanto mais eu sabia que eu nada podia fazer, mas Ela sumia. “Eu acre­dito em Deus”, gri­tei. Será que agora Ela volta a aparecer?

Ela con­ti­nua sumindo, Deus não tem nada a ver com algo tão bonito assim. “Eu acre­dito em fadas, em anjos. Eu acre­dito no diabo, mas pelo amor de Deus, volta…”

O meu pedaço de mundo ina­cre­di­tá­vel sumiu e eu não acre­di­tei. E, ao meu pé, uma poça de san­gue cor de asas, na qual eu não podia me lavar. Minha mãe disse que boas meni­nas não san­gram, não sujam. Boas meni­nas não encos­tam no vitral, nem no santo, nem nos seios de vidro da mulher santa.

Segui cami­nhando. E me arras­tei: por todo o san­gue, por todo lugar, me arras­tei pelo cami­nho, me arras­tei até che­gar em casa. Eu me esfre­guei no san­gue mãe, eu já sou moci­nha. Na cozi­nha, tomei um copo de água, e, ainda me arras­tando por­que minhas per­nas, ofen­di­das comigo, não que­riam aju­dar, fui até a varanda. O meu copo caiu.  Eu não tenho vitral, eu não tenho san­tos, Mãe, o papai do céu está comigo? Eu só tenho vidros que­bra­dos. Eu me arrasto até onde tudo parece mais calmo, pelos cacos. Eu san­gro tam­bém, mamãe. Eu não sabia voar, mas tentei.

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Comentários

Há 2 comentários.

  1. Alexandre Piccolo escreveu:
    27 de setembro de 2010

    Bem legal, Mar­cella, o fas­cí­nio pela ima­gem no vitral que parece se mate­ri­a­li­zar flui super bem no texto, ótima cadên­cia entre­mada de reflexões/pudores curi­o­sos… lembrou-me, por um momento, algo (clipe?) a la Madonna, entre a proi­bi­ção per­versa e o desejo ino­cente, cheio de suges­tões colo­ri­das…
    Bem vinda!

  2. Leosfera escreveu:
    7 de outubro de 2010

    Suas metá­fo­ras são tão deli­ca­das que tenho medo de quebrá-las. Parabéns.

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