— Novela por Leonardo Afonso, em 10 de setembro de 2010
Carmen foi esperta ao lembrar que Saulo tinha o flagrante na boca, e não poderia falar. E como sabia um tanto de libras, poderia ser mais convincente. Se ela estava nervosa, o rapaz estava perto de se entregar e confessar até o que não fizera, sem nenhuma tortura fisica. Já os dois amigos esperavam perto do carro. Sérgio fizera menção de os acompanhar, mas o guarda mandou-o esperar.
_ Caralho, Sérgio, vai dar merda. Ele não engoliu a parada!
_ Não vai não, fica tranquilo. Mas ele vai jogar fora essa porra!
_ Você tem razão, a gente não pode se expor assim. A gente tá sendo pago pra fazer essa trip!
_ Isso mesmo. Mas não só por isso. Ninguém aqui é mais moleque.
_ Me diz uma coisa: — André disse após uma pausa — por que você abriu uma exceção naquela noite?
_ For old times’ sake [Pelos velhos tempos]. Mas não tem problema, eu nem me arrependo.
_ Depois de hoje eu acho que vou acabar parando também. O vinho tá de bom tamanho.
André abriu a porta para pegar água, já que sua boca estava um Sahara, mas outro guarda, encostado à pilastra, o advertiu:
_ Fora do carro, senhor!
E ele se desculpou. Enquanto isso se passava lá fora, Carmen e Platinado foram escoltados até a parte coberta do posto. O policial abriu a porta e gritou lá pra dentro:
_ Major! Um instante de sua atenção, por favor.
_ Pois não, Lemes.
_ O senhor acha que pode ser ele?
_ Você pediu o documento, Lemes?
_ Perdão, major, mas é que… ele demonstrou comportamento suspeito. (e para Platinado:) Seus documentos, senhor.
Carmen fez um gesto que supostamente traduziria o pedido do oficial. Saulo sacou sua carteira e mostrou a habilitação. O soldado Lemes levou um tempo analisando o documento, e olhando para Saulo, repetidas vezes; não respondeu nada a ele, mas ao superior:
_ Falso positivo, senhor.
_ Depois nós conversamos, Lemes. Libera o rapaz.
Platinado soltou um conspícuo suspiro de alívio, e ainda teve presença de espírito de fazer um gesto, que Carmen traduziu como “muito obrigado, senhor”.
Festejaram como se vencessem a final da Copa do Mundo quando de volta ao carro. Saulo ainda estava preocupado se ia tomar um esporro, afinal, foi ele que inventou de trazer aquilo. Sérgio, que seguia no banco do passageiro, apenas olhou pra trás e foi taxativo:
_ Saulo (só lhe chamava pelo nome quando a coisa era séria), joga fora essa porra na minha frente!
_ Tá legal, mano, foi mal…
E lá foi pela janela o quadradinho de maconha prensada no mesmo plástico de cigarro babado. Acrescentou, meio que em sua defesa:
_ Ser preto também é foda, viu!
Todos o apoiaram nisso. André consultou o relógio e observou:
_ Meu, parece que a gente ficou uma eternidade lá no posto, foram vinte minutos.
_ Bom, acho que ainda dá pra almoçar em Três Marias. Que tal um peixe na beira do São Francisco? — propôs Sérgio, o mais rodado de todos.
_ Ah, rola até filmar alguma coisinha, não? O Velho Chico, como vocês dizem — Carmen mostrou saber bastante do país em que já morava havia quase dez anos.
André conduziu até pararem para almoçar, e ia pedindo que colocassem este ou aquele som. Carmen pediu um Piazzola e foi atendida; na verdade era um Piazzola/Burton, que ela não conhecia, mas de que gostou muito. Platinado achou melhor não reclamar seu espaço naquele dia, e até que já se habituava à trilha sonora. Sérgio foi quem reclamou:
_ Só eu não escolhi música até agora!
_ Putz, cara, não me diz que você vai colocar aqueles bate-estacas! Aliás, não entendo como você se bandeou por esse lado! A gente sempre curtiu as mesmas coisas!
_ Mas eu não deixei de gostar! Quer dizer, você também partiu por lado meio extremo… Mas eu conheci uma galera que frequentava reive, e eu fui em uma e achei bacana. Tem coisa muito boa, você é que é preconceituoso.
_ Nah, você virou pleibói!
E riram ambos. O aperto que passaram duplicou o prazer do resto da viagem, isso inclui o peixe em Três Marias, que estava ótimo. O prosseguimento foi super tranquilo, a estrada realmente estava boa e isso suscitou, durante o lanche em Cristalina, comentários favoráveis ao governo (Sérgio se segurou para não discutir), o que trouxe o assunto à tona:
_ Eu ainda não acredito que vamos ser recebidos pela presidente! — manifestou-se Saulo,
Chegram a Brasília antes do pôr-do-sol, e acomodaram-se no Setor Hoteleiro Sul. Como era fim de semana, perguntaram ao recepcionista onde tinha uma baladinha, e ele indicou um pub, com música ao vivo. Para quem mora em Sampa, foi meio decepcionante, mas serviu com folga para celebrar mais uma etapa cumprida, e a batalha vencida contra os agentes da lei. Saulo inclusive, timidamente, chegou-se a Carmen: “olha o que ficou no meu bolso!” Era o baseado que tinha ficado pronto. André achou por bem esconder de sérgio — e com razão. Então se revezaram para fazer uma fumacinha atrás do bloco. Chegaram ao hotel chapados — era forte! — e Sérgio acabou percebendo, mas escolheu não falar nada na hora.
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