Transcontinental VIII

Novela por , em 3 de setembro de 2010

Até Bra­sí­lia, teriam mais um tre­cho rela­ti­va­mente curto, e tran­quilo. De lá em diante é que viria a pedreira. De BH até Sete Lagoas a pista era dupla, e dali em diante a infor­ma­ção era de que a pista era boa. Sér­gio dessa vez não come­çou diri­gindo, André assu­mindo o posto, e Car­men e Pla­ti­nado foram atrás, assis­tindo a um DVD dos melho­res momen­tos das copas. Ela gos­tava — e enten­dia — de fute­bol, e tro­ca­ram pro­vo­ca­ções sobre quem era melhor entre Pelé e Mara­dona. Como se hou­vesse ques­tão: nem ela se levava a sério. Pla­ti­nado era uma atra­ção à parte com seus comen­tá­rios: “urra, meu, olha a caneta que ele deu no beque, que­brou a coluna do cara!”, e apro­vei­tou a sua pró­pria deixa, ainda que inseguro:

_ Falar nisso, Sér­gio, será que não rola nem um bequi­nho? Sabe, estrada… é tradição!”

_ Cara, a gente não pode cor­rer esse risco não, já pen­sou? Vai me dizer que você trouxe?

_ Ah, um pou­qui­nho, né? Foi mal, eu achei que…

_ Tá, mas… vê aí no mapa onde tem posto policial.

_ Puxa, será que dá pra tirar o fute­bol então, e colo­car um som? — André pediu.

_ Cara, como você é vici­ado nessa porra — brin­cou Sér­gio. Qual?

_ Põe o Shakti, tá no DVD de fusion, embora seja um som indi­ano. É que é  do John McLaugh­lin, sabe?

_ Essa ainda é do meu tempo de Coquetel.

_ Meu, tem umas gra­va­ções do Coque­tel aí, tam­bém. Mas o Shakti é mais apro­pri­ado, você sabe…

_ E então, Pla­ti­nado? Tem polícia?

_ Em Sete Lagoas. A gente espera pas­sar. Eu vou dei­xar pronto, firmeza?

_ Beleza. Mas a gente vai se livrar do resto. Ima­gina se a Expe­di­ção acaba na cadeia!

_ Ah, deixa disso, Sér­gio, relaxa — Car­men inter­veio. Todo mundo aqui já rodou pra todo lado com fumo, e nunca rodou! E o tro­ca­di­lho foi sem inten­ção (ão que ainda soava como ón).

_ Eu fico gri­lado. É meu sonho o que a gente tá fazendo… E eu já tinha parado há mais de um ano, até aquela festa.

_ É ver­dade — con­fir­mou André. Nem quando a gente foi pra Ilha Grande ele quis. Aca­bou o DVD? Coloca o Coque­tel, enquanto seu Lobo não vem. Tá no “diversos”.

_ Você pas­sou aque­las fitas todas pra MP3?

_ Exa­ta­mente.

Era de fato um Coque­tel: foram cur­tindo jazz, rock, rock pro­gres­sivo prin­ci­pal­mente, fusion e sons de van­guarda. E as vozes de um e de outro entre as músi­cas. Tratava-se, como naquela via­gem, de reto­mar o pas­sado para cons­truir um futuro. É dife­rente de mera nos­tal­gia. Esta­vam todos muito satis­fei­tos e as expec­ta­ti­vas eram as melho­res. A estrada era uma beleza e o dia estava lindo. Che­ga­ram logo a Seta Lagoas, e iam atra­ves­sando, quando sur­giu o posto poli­cial. Havia um guarda de uni­forme mar­rom no asfalto. Fica­ram apre­en­si­vos. Sér­gio deu a ordem:

_ Fica todo mundo tran­quilo. Se demons­trar ner­vo­sismo é que ele encrenca. Não vão nos parar, e se parar eu mos­tro os docu­men­tos e a gente segue.

Não deu outra, o guarda com os tra­di­ci­o­nais óculos escu­ros rai­bam fez sinal para que encostassem.

_ Engole essa porra! — André deter­mi­nou antes que che­gas­sem mais perto da autoridade.

Car­men virou-se para Saulo e o viu colo­car um plás­tico de maço de cigarro na boca.

_ Bom dia — saudou-lhes o guarda.

_ Bom dia — res­pon­de­ram todos, menos o Platinado.

_ Os senho­res estão vindo de onde?

_ De São Paulo. Quer dizer, do Rio — atrapalhou-se André.

_ O senhor não sabe de onde vem?

_ Nós fomos de São Paulo até o Rio, e esta­mos indo a Brasília.

_ É uma expe­di­ção, — Sér­gio expli­cou — esta­mos indo até o…

_ Docu­men­tos do con­du­tor e do veí­culo, por favor — interrompeu-o o poli­cial, dando uma boa olhada em todos os pas­sa­gei­ros. E não deve ter sido difí­cil detectar-lhes o nervosismo.

André ainda se atra­pa­lhou com a car­teira antes de mos­trar a habi­li­ta­ção. Sér­gio pegou o docu­mento do carro no porta-luvas e lhe entre­gou. Ele pas­sou um tempo — que pare­ceu enorme — exa­mi­nando os documentos.

_ Aqui falta o Licen­ci­a­mento e o DPVAT — disse, espe­rando a res­posta, que demo­rou. E veio de Sér­gio, dali em diante o inter­lo­cu­tor oficial.

_ O carro é zero, ainda não venceu.

O guarda ficou mudo, e pôs-se a cir­cun­dar o veículo.

_ Há dro­gas ou armas no veículo?

_ De forma alguma, senhor.

_ Peça a todos que des­çam do veículo.

Todos des­ce­ram, hir­tos. O poli­cial pas­sou a revis­tar super­fi­ci­al­mente o inte­rior do carro. Achou o livri­nho de seda no chão. Mas não criou encrenca. O que era estra­nho é que a poí­cia não cos­tuma des­con­fiar de carro de bacana. Tal­vez esti­vesse com uma pro­pina em mente. Mas havia um deta­lhe: Saulo era o único negro ali, e foi batata.

_ O senhor — apon­tou pro rapaz. Acompanhe-me.

Saulo tre­mia mais que vara verde, e andou em dire­ção ao guarda calado. Car­men veio em seu socorro.

_ Ele é mudo, eu posso inter­pre­tar a lín­gua de sinais.

A encrenca ia só piorando.

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