Transcontinental X

Novela por , em 17 de setembro de 2010

Bra­sí­lia era mais que ape­nas uma parada. Tinham diver­sos com­pro­mis­sos lá; um já foi men­ci­o­nado, e os enchia de ner­vo­sismo, natu­ral­mente. Outro foi um encon­tro com um mecâ­nico da mon­ta­dora, que pas­sou algu­mas ins­tru­ções. Mas o pri­meiro, na manhã seguinte à che­gada, era na EBC, para dis­cu­tir deta­lhes do pro­grama que seria feito, que vira­ria tam­bém filme, além de uma entre­vista que dariam para ir ao ar no noti­ciá­rio da TV Bra­sil. Para isso, encontraram-se pri­meiro com Juli­ana, que viera de Sampa para assessorá-los, e, no horá­rio mar­cado, lá esta­vam todos para conhe­cer Flá­via, a repór­ter desig­nada para cobrir a Expe­di­ção. Ela fez todos os sala­ma­le­ques e con­du­ziu o quin­teto a uma sala onde encon­tra­ram tam­bém o edi­tor do tele­jor­nal, que brin­cou: “Vocês não sabem o quanto eu sinto inveja de vocês!”

Tro­ca­ram algu­mas ama­bi­li­da­des a mais e sentaram-se à mesa para dis­cu­tir o pro­jeto de audi­o­vi­sual asso­ci­ado à Expe­di­ção Trans­con­ti­nen­tal. Jorge, o edi­tor, expli­cou que eles teriam à tarde uma reu­nião com a equipe téc­nica, já na ilha de edi­ção, para rece­ber todas ins­tru­ções e come­çar a pre­pa­rar a maté­ria com o mate­rial que eles já tinham e ali­men­tar mais uma vez a página. Flá­via pas­sou a expli­car o plano da matéria:

_ Pri­meiro eu vou nar­rar um texto por sobre o que vocês já tinham de São Paulo, Rio, BH e o que vocês vão fil­mar daqui a pouco, depois uma breve fala do André e do Sér­gio, vocês dois (Car­men e Saulo) eu vou apre­sen­tar, mas não vão falar. Aí vem a recep­ção no Pla­nalto, depois entram ima­gens de arquivo de Cui­abá, Porto Velho e Rio Branco, eu falo um pou­qui­nho da ponte, e aí entra um tre­cho sobre o Peru, que tem uma equipe pre­pa­rando. Vai ser o encer­ra­mento do jor­nal, olha responsabilidade!

À tarde na ilha, Juli­ana não gos­tou do que viu: os aven­tu­rei­ros haviam esque­cido de usar as cami­se­tas e bonés da Expe­di­ção nas fil­ma­gens. Ela cobrou tam­bém mais ima­gens do carro, já que ele não foi exa­ta­mente de graça, e a mon­ta­dora que­ria ver seu logo­tipo exi­bido. Sér­gio e André se entre­o­lha­ram cons­tran­gi­dos, mas foi Car­men quem se des­cul­pou for­mal­mente, na con­di­ção de cine­gra­fista. Coube a Flá­via ame­ni­zar a tensão:

_ Não tem pro­blema gente, daqui pra frente vocês fil­mam com o uni­forme. E tenta fil­mar nosso logo tam­bém, hein?

A trupe saiu para fazer ima­gens na Cate­dral e na Praça dos Três Pode­res, e o tempo seco da cidade naquela época, e naquele horá­rio ainda mais, foi o bas­tante para for­mar uma una­ni­mi­dade: um cho­piho antes de almo­çar! Flá­via suge­riu fazer isso na Vila Pla­nalto, um sim­pá­tico bairro com jeito de cidade interiorana.

No dia seguinte, todos ves­ti­ram suas melho­res rou­pas (Pla­ti­nado teve que comprá-las) e entra­ram no Santa Fe lavado (pela pri­meira vez) para cum­prir o com­pro­misso no Palá­cio do Pla­nalto. Flá­via e sua equipe haviam se jun­tado a eles no hotel, e apro­vei­ta­ram para fazer umas ima­gens do jipe na espla­nada, que fica­ram muito boas. A chefe do ceri­mo­nial os recep­ci­o­nou, e teve que pedir des­cul­pas algu­mas vezes pelo atraso da pre­si­dente e ouvir sem­pre que “nós enten­de­mos”, até que ela apa­re­ceu. O fotó­grafo da pre­si­dên­cia e os cine­gra­fis­tas da TV Bra­sil dis­pu­ta­vam o melhor ângulo enquanto os expe­di­ci­o­ná­rios eram cum­pri­men­ta­dos um a um. Ape­nas Sér­gio estava de cara amar­rada, e Flá­via pediu-lhe, com um gesto, que esbo­çasse um sorriso.

_ Eu fico muito feliz em encontrá-los a todos, para­be­nizo a vocês por essa emprei­tada, que tem muito mais que o valor sim­bó­lico de atra­ves­sar a Amé­rica do Sul de um oce­ano a outro: repre­senta a inte­gra­ção regi­o­nal que tanto bus­ca­mos, da qual a Ponte Bina­ci­o­nal Brasil-Peru é parte. Eu desejo todo sucesso à Expe­di­ção Trans­con­ti­nen­tal, e man­dem um pos­tal lá do Peru!

Essa foi a fala da pre­si­dente ante as câme­ras. Depois disso, sentaram-se em volta de uma mesa em uma con­versa mais informal.

_ Então você é argen­tina? — disse a man­da­tá­ria a Car­men — De Bue­nos Aires?

_ De Mendoza.

_ Terra de bons vinhos, e belas mulhe­res… como você.

_ Gra­cias…

(André segu­rou o riso, e guar­dou o comen­tá­rio para mais tarde)

_ Vocês dois estu­da­ram jun­tos, então?

_ É, na Uni­camp, — Sér­gio res­pon­deu — mas não no mesmo curso. Eu fiz enge­nha­ria mecâ­nica, e o André, economia.

_ São os dois muito inte­li­gen­tes, com certeza.

_ Bem, eu conheci mais gente burra que inte­li­gente por lá — André não se segu­rou dessa vez — mas eu tive aula com o seu ministro.

_ Muito obri­gado pelo elo­gio — Sér­gio disse, dando um pon­tapé no amigo, por baixo da mesa.

_ E você é o cra­que da mecâ­nica — disse ela a Saulo, esgo­tando seu “briefing”.

_ Bem, eu… sei alguma coi­si­nha, né? O Sér­gio me cha­mou, mas eu espero não ter que resol­ver nada, né? O carro é zero bala. (Ele estava visi­vel­mente nervoso).

Com mais alguma con­versa miúda, a pre­si­dente vol­tou a seus afa­ze­res, e a trupe foi toda para a EBC para fina­li­zar a maté­ria. À noite, fica­ram espe­rando o tele­jor­nal no quarto de hotel, e fica­ram real­mente entu­si­a­ma­dos vendo o bom tra­ba­lho do pes­soal da TV Bra­sil. A maté­ria divul­gava a página, e André ficou acom­pa­nhando a audi­ên­cia, que deu um salto já nas pri­mei­ras horas. Foram levar Juli­ana no aero­porto, e a des­pe­dida foi emo­ci­o­nada — na ver­dade, era Juli­ana que era emotiva.

Na manhã seguinte, o tre­cho mais sério da via­gem come­çava: um esti­rão de mais de mil quilô­me­tros, e a estrada não era muito de con­fi­ança. Não era ainda uma aven­tura, mas era pelo menos a pri­meira inves­tida rumo ao oeste — che­ga­riam à metade do con­ti­nente, grosso modo. Obvi­a­mente, sair e beber estava fora de ques­tão, pois o plano era às seis da manhã pegar a estrada pra Goi­â­nia: come­ça­riam com pista dupla, nova, para enca­rar a dureza depois.

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