— Novela por Leonardo Afonso, em 24 de setembro de 2010
Não dava pra esperar o café da manhã do hotel, então comeram qualquer bobagem no posto onde abasteceram, e pediram pra encher a garrafa de café. Sérgo fez questão de dirigir até Goiânia, pois já tinha a informação que a pista era boa, a estrada duplicada, e se entusiamou tanto que Carmen protestou: que corresse menos ou passasse o volante. Ele maneirava um tempo e daqui a pouco ela tinha que reiterar o pedido. Chegou a ficar irritada — ainda por cima estava em dias complicados — e foi preciso André assumir o volante pra que ela ficasse mais tranquila. “Eu deveria ter tirado habilitação, sabia?”, ainda alfinetou, antes de colocar um filme dos Irmãos Marx que finalmente a apaziguou. Enquanto ela e Platinado davam risada (ela mais que ele, que dependia das legendas) os amigos conversavam na frente.
_ E aí, como é ficar sem negociar nem uma opçãozinha, já faz o quê, uma semana quase?
_ É ótimo, mas dá até saudade, sabe? Vicia. E você, não acha que se precipitou?
_ Não, quer dizer, talvez, mas eu pago pra ver. Ficar muito tempo nesse tipo de emprego é fria. Entra a síndrome Dilbert.
_ Eu não servia pra trampar em multinacional… se bem que eu nunca pensei em ir pro mercado financeiro. E todo mundo da minha turma sonhava e foi fazer outra coisa. Às vezes eu acho que devia fazer um mestrado fora.
_ Faz, porra! Mas o quê, MBA?
_ Não… já disse que essa área não me apetece. Algo na linha keynesiana, que tá voltando com tudo agora.
_ Vai acabar ministro.
_ Eu já conheço a presidente!
Ambos riram. André baixou a voz pra comentar:
_ Vê como ela sossegou, eu estou a 140!
_ E eu nunca pensei que fosse falar bem de um Marx!
De repente se viram dentro de uma cidadezinha e André não viu o quebra-mola. O carro deu um salto e Carmen dirigiu sua cólera para o parceiro desta vez:
_ Caramba, André, você também! A gente vai chegar lá hoje, não precisa disso!
_ Eu fico puto com essa merda de quebra-mola, no meio da estrada, porra! — defendeu-se ele, a seu modo.
_ Então — interveio Sérgio, apagando o fogo — na próxima cidade tem uma lanchonete tradicional, vale a pena parar?
_ Acho que hoje não dá pra ficar parando — manifestou-se Platinado.
André decidiu sozinho: “A gente toma só um cafezinho, rápido.” Assim fizeram, e foram galgando os quilômetros, passando por Anápolis e chegando à capital. Sérgio brincou:
_ Não dá pra passar uma noite aqui? Tá cheio de mulher bonita nessa cidade!
_ A gente precisa é achar a estrada — André cortou. Podia até ter perguntado lá no Jerivá. Agora vamos ter que encostar num posto.
_ Aqui diz que é a estrada pra Goiás Velho — disse Carmen, consultando o material preparado por Juliana.
_ Gente, é só perguntar como ir pra Cuiabá, só tem um jeito! — exasperou-se Platinado.
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