Transcontinental XI

Novela por , em 24 de setembro de 2010

Não dava pra espe­rar o café da manhã do hotel, então come­ram qual­quer boba­gem no posto onde abas­te­ce­ram, e pedi­ram pra encher a gar­rafa de café. Sérgo fez ques­tão de diri­gir até Goi­â­nia, pois já tinha a infor­ma­ção que a pista era boa, a estrada dupli­cada, e se entu­si­a­mou tanto que Car­men pro­tes­tou: que cor­resse menos ou pas­sasse o volante. Ele manei­rava um tempo e daqui a pouco ela tinha que rei­te­rar o pedido. Che­gou a ficar irri­tada — ainda por cima estava em dias com­pli­ca­dos — e foi pre­ciso André assu­mir o volante pra que ela ficasse mais tran­quila. “Eu deve­ria ter tirado habi­li­ta­ção, sabia?”, ainda alfi­ne­tou, antes de colo­car um filme dos Irmãos Marx que final­mente a apa­zi­guou. Enquanto ela e Pla­ti­nado davam risada (ela mais que ele, que depen­dia das legen­das) os ami­gos con­ver­sa­vam na frente.

_ E aí, como é ficar sem nego­ciar nem uma opção­zi­nha, já faz o quê, uma semana quase?

_ É ótimo, mas dá até sau­dade, sabe? Vicia. E você, não acha que se precipitou?

_ Não, quer dizer, tal­vez, mas eu pago pra ver. Ficar muito tempo nesse tipo de emprego é fria. Entra a sín­drome Dilbert.

_ Eu não ser­via pra tram­par em mul­ti­na­ci­o­nal… se bem que eu nunca pen­sei em ir pro mer­cado finan­ceiro. E todo mundo da minha turma sonhava e foi fazer outra coisa. Às vezes eu acho que devia fazer um mes­trado fora.

_ Faz, porra! Mas o quê, MBA?

_ Não… já disse que essa área não me ape­tece. Algo na linha key­ne­si­ana, que tá vol­tando com tudo agora.

_ Vai aca­bar ministro.

_ Eu já conheço a presidente!

Ambos riram. André bai­xou a voz pra comentar:

_ Vê como ela sos­se­gou, eu estou a 140!

_ E eu nunca pen­sei que fosse falar bem de um Marx!

De repente se viram den­tro de uma cida­de­zi­nha e André não viu o quebra-mola. O carro deu um salto e Car­men diri­giu sua cólera para o par­ceiro desta vez:

_ Caramba, André, você tam­bém! A gente vai che­gar lá hoje, não pre­cisa disso!

_ Eu fico puto com essa merda de quebra-mola, no meio da estrada, porra! — defendeu-se ele, a seu modo.

_ Então — inter­veio Sér­gio, apa­gando o fogo — na pró­xima cidade tem uma lan­cho­nete tra­di­ci­o­nal, vale a pena parar?

_ Acho que hoje não dá pra ficar parando — manifestou-se Platinado.

André deci­diu sozi­nho: “A gente toma só um cafe­zi­nho, rápido.” Assim fize­ram, e foram gal­gando os quilô­me­tros, pas­sando por Aná­po­lis e che­gando à capi­tal. Sér­gio brincou:

_ Não dá pra pas­sar uma noite aqui? Tá cheio de mulher bonita nessa cidade!

_ A gente pre­cisa é achar a estrada — André cor­tou. Podia até ter per­gun­tado lá no Jerivá. Agora vamos ter que encos­tar num posto.

_ Aqui diz que é a estrada pra Goiás Velho — disse Car­men, con­sul­tando o mate­rial pre­pa­rado por Juliana.

_ Gente, é só per­gun­tar como ir pra Cui­abá, só tem um jeito! — exasperou-se Platinado.

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